sábado, 28 de outubro de 2006

Uma mulher misteriosa

Era início da Primavera e o sol já espreitava alegremente anunciando um novo dia! Maria tinha acabado de despertar e começou a arranjar-se para o emprego, como fazia todas as manhãs! Saiu de casa, protegendo-se do frio, e iniciou o seu percurso a pé.
Para poupar tempo cortava caminho, passando por um parque bastante movimentado, mas que àquela hora da manhã ainda estava deserto. Caminhava devagar, expirando pequenas nuvens, sempre com as mãos nos bolsos. Observava os arbustos, as árvores a recuperarem a folhagem e as flores a espreitarem, cada vez mais belas! Distraída, chocou com um senhor que, como se nada fosse, continuou o seu caminho. Foi obrigada a parar, pois quase caíra, e a reparar numa mulher sentada num banco. Parecia ser jovem, mas as roupas que usava, o desgaste da sua pele e a secura do seu cabelo não lhe permitiam calcular ao certo a idade desta mulher misteriosa. Tinha um nariz arrebitado que acompanhava uns olhos tristes, cansados. Na sua boca fina destacavam-se feridas. O seu cabelo era comprido mas com um corte descuidado e antiquado. Tinha uns pés assentes no banco e o corpo debruçado sobre eles. Cobria-se com uma manta castanha.
Maria abanou a cabeça, recompôs-se e continuou o seu destino tentando esquecer o que vira. Sentia que esta mulher não lhe era desconhecida! Talvez passasse por ela todas as manhãs! Durante o dia não conseguiu desviar o pensamento daquela senhora inocente, que a vida maltratava.
Incomodada, saiu do emprego mais cedo e regressou a casa seguindo o percurso de sempre. O parque estava sufocante, cheio de pessoas! Maria procurava-a entre a multidão! Encontrou-a sentada no mesmo banco, sozinha, enquanto que os outros todos transbordavam de gente.
As pessoas passavam por ela evitando olhá-la, mas Maria não resistiu! Apertou o casaco com força e foi sentar-se junto dela!

Isabel Ralha de Abreu

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